A filosofia nietzschiana e o poder do martelo

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Sempre que adentro na escrita nietzschiana sinto-me espancado, praticamente marretado como me senti aos 15 anos imberbes ao ler seu clássico “Assim falava Zaratustra”. Não importa a idade, ao reler as obras desse importante filósofo moderno, sempre eclode um novo entendimento que passou despercebido em uma leitura anterior, por falta de maturidade intelectual para entendê-lo. Sentia e sinto-me esmagado porque a filosofia do martelo de Nietzsche leva seu leitor a questionar alguns dos valores a nós impostos pela cultura e pela sociedade na qual estamos inseridos; é a destruição de convicções, conceitos e preconceitos adquiridos ao longo de nossa trajetória.
Embora Nietzsche seja um crítico feroz de Sócrates, seu aforismo “sê tu mesmo” é praticamente a maiêutica socrática, ou seja, é o parto de ideias próprias, o parto de si mesmo, o parto de um novo ser que surge a partir das cinzas e detritos ocasionados pela violência do martelo. Para o filósofo o homem deve tornar-se senhor de si mesmo e não marionete de outro mais esperto, para isso é preciso destruir antigas convicções e desejar sempre saber ao invés de acomodar-se nas águas tranquilas do crer.
Muitos não suportam ler duas ou três páginas de qualquer obra nietzschiana, devido muitas vezes a complexidade abissal de sua sabedoria, pois Nietzsche foi capaz de sintetizar em duas ou três frases assunto que um escritor normal precisaria do espaço de um livro para discorrê-lo, além do mais, quanto mais se adentra racionalmente nas letras da obra do filósofo alemão, mais rápido desmoronam os mundos perfeitos apresentados por nossos pais, professores e religiosos.
A arte de pensar por si mesmo é tão perigosa, que grades curriculares da disciplina de filosofia estão limitadas a um período mínimo e básico nas escolas e universidades. Isso talvez ocorra por precaução do Estado, para que não surjam cidadãos autônomos e questionadores a respeito das ações políticas, das leis e dos poderes constituídos. Em suma, a filosofia e filósofos como Nietzsche configuram uma ameaça ao  status quo de nações e organizações, que empregam a mão do homem para mover suas engrenagens.
Nietzsche é amado e odiado por ter se tornado um crítico impiedoso da vulgarização dos valores científicos, religiosos, éticos e morais que direcionam nossa vida em sociedade, ou seja, a massificação, a vida de gado, o controle de corações e mentes por quem detém o poder. Para o filósofo, a cultura de massa destituiu o homem de si mesmo e o transformou em um ser anônimo que desconhece seu potencial nobre em criar e sua unicidade; um ser que passa pela vida e não vive, não possui identidade própria, pois se tornou homogêneo.
 A filosofia de Nietzsche assusta em um primeiro momento, porque se comporta como a luz do sol ante alguém que passou muito tempo no escuro. Ao iniciante recomenda-se paciência para lê-lo e a leitura deve ser em doses homeopáticas, procedendo assim é possível suportar altivo as marteladas e as chicotadas do carrasco e quando o leitor já não for o mesmo, ao invés de acusá-lo irá defendê-lo, pois somente suas martelas – apesar da dor – foram capazes de libertá-lo ao quebrar o cimento que imobilizava a verdadeira essência da liberdade, tão rara, cara e tão submetida a escravidão silenciosa que nos move pelos caminhos da vida em sociedade.
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