Pensamentos e reflexões de Davi Roballo e outros autores

A grande estação

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trem

Certa vez um garoto encontrava-se inconsolável por ter perdido sua avó materna, não entendia o porquê de sua avó ter partido, como toda criança ele possuía uma vaga noção sobre o morrer. Não contendo sua inquietação e com toda inocência de uma criança de sete anos de idade perguntou a seu pai: o que é morrer? O que é a morte? Como estavam no carro da família esperando escoar um imenso comboio de vagões, o pai do garoto respondeu: “morrer é deixar de viver aqui para viver em outro mundo e a morte é um trem de passageiros que recolhe a alma das pessoas em uma cidade e as leva para um bom lugar, no qual descansam e curam seus males.” Ao imaginar um trem cheio de almas indo para um bom lugar o garoto aceitou com tranquilidade a morte de sua avó.

Sem entender muito a morte, esse fenômeno natural rodeado de tabus, evitamos pensar que temos no futuro uma data reservada aos atos fúnebres de nosso próprio corpo. Ao refletir sobre a finitude – talvez como forma de aliviar o terror que representa para nós o próprio fim -, imagino que ao nascermos entramos em uma grande estação e nela aguardamos com resignação o expresso que sinaliza que nossa hora chegou.  Nessa estação como não possuímos bilhetes não nos é possível saber a hora, dia, mês e ano do embarque. Nossa partida pode ocorrer a qualquer momento, fato que torna nossa vida uma incógnita, algo totalmente imprevisível. Mesmo que nos doa e não admitamos em um primeiro momento, viver é antes de tudo uma espera silenciosa pela morte.

Durante essa espera que hora estamos mergulhados vamos esbarrando em contradições como a de afirmar que estamos vivendo, quando na verdade estamos morrendo e essa morte se inicia no nascimento, pois nesse importante instante da existência a ampulheta inicia seu processo de contagem regressiva. Talvez nosso choro ao respirarmos pela primeira vez denote toda a incerteza em relação ao próprio fim, indefinição que o ser humano carregara por toda vida.

Entre os 365 dias de um ano, o que marca nosso nascimento é tido como especial, pois comemoramos nosso aniversário, no entanto, se refletirmos sobre isso perceberemos que comemoramos na verdade o encurtamento do tempo de espera pelo dia derradeiro, não fosse isso não assopraríamos velas para apagá-las, ou seja, a mensagem inconsciente de que apreciamos e desejamos o apagar das luzes da própria existência.

Particularmente acredito que viver é antes de tudo resignar-se por ignorar a data da própria partida. Embora vivamos em uma espera inconsciente pelo próprio fim, temos medo da morte, pois geramos em nós apreensão e angústia ante a tudo aquilo que desconhecemos, isto é, paira sobre nós uma determinada insegurança quanto a nossa própria vida. Acredito que no fundo não tememos a morte, mas assusta-nos as inúmeras formas em que a vida chega ao fim, entre elas o sofrimento. Ninguém quer sofrer em seus últimos dias, desejamos um desenlace tranquilo e sem traumas, mas somos impotentes, pois isso não depende apenas de nosso desejo.

A vida pode ser compreendida como uma grande estação, na qual prontos para partir e alheios ao ano, dia e hora de embarque, perambulamos, trabalhamos, casamos e temos filhos como forma de passar o tempo, simplesmente por ignorarmos a data de nossa partida. Para a maioria de nós, o tempo de espera se faz tão longo, que nos afeiçoamos a esta grande estação, julgando-nos donos da mesma e a ignorar que ela pode ser apenas um ponto de transição entre outras tantas.

Se nos fosse dado a dádiva de saber de nossos dias e do próprio fim, talvez  viveríamos mais intensamente do que vivemos atualmente, pois a data de partida seria uma certeza pontual e não uma incógnita, se isso fosse possível, com certeza seria excluída dos dicionários a palavra adiar. Se pudéssemos ter conhecimento da data de nossa finitude, talvez pudéssemos viver em paz e harmonia uns com os outros, sem ganância, sem guerras e com mais humanidade, pois perceberíamos claramente que as coisas materiais são tão fúteis, que não conseguem embarcar conosco no expresso da morte.

Davi Roballo 

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8 Replies to “A grande estação”

  1. Adilson Rezende disse:

    De fato amigo, somos passageiros dessa estação rumo a uma outra, costumo dizer, que o bilhete já vem carimbado e numerado. Só que nossa vã consciência, abdica-nos visualiza-lo! E o trem não cessa seus embarques e desembarques. Um abraço

  2. Cicero Gomes da silva disse:

    Parabéns! Adorei.Deus o abençoe SEMPRE.

    1. Davi Roballo disse:

      Obrigado pela interação e prestigio. Abçs

  3. Melhor ignorar. Já não é agradável saber que esta vivência temporária neste Plano, imagine saber a data da partida e pensar com angústia esse dia. Melhor não.
    Mas uma pergunta incomoda- me, Davi, e você que sabe das coisas espirituais, por que ninguém quer morrer se dizem que o outro Plano é tão bom? Responde no Messenger Daviw

    1. Davi Roballo disse:

      Obrigado pelo gentil e oportuno comentário.

  4. antonio carlos ruiz disse:

    Parabéns meu irmão. Sucesso, sempre!

  5. ELISABETE SOARES DE MATHIA disse:

    Boa reflexão sobre a existência. No entanto, ainda acredito ser melhor o desconhecimento dos detalhes do bilhete… Quantos seres iriam viver amargurados “aguardando” o dia “d”?
    Também convém ressaltar que nos sentimos agarrados a esse mundo em função dos laços de afeto que temos nesse plano… Um abraço.

  6. Joaquim Garcia disse:

    Grande Davi, muito interessante esta sua visão da vida e da morte. Pensando bem, é exatamente isso que acontece com todos nós. Grande abraço e um Feliz Natal enquanto espera o trem.

Olá! Obrigado pela visita.

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