A lição das araras azuis

Scroll down to content

Clipboard01

 

Em uma época anterior aos descobrimentos, em algum ponto das terras que futuramente formariam o Brasil, entre o Povo Guarani, dois jovens apaixonaram-se perdidamente. “Olhos de fogo”, um jovem guerreiro enamorou-se por “Estrela Pequena”, filha do cacique. Decididos e desejosos a não mais separarem-se, foram até o Pajé da aldeia para solicitar um feitiço que os unisse até a morte.

O velho Pajé compadecido e solidário com a euforia dos jovens apaixonados, que pouco sabiam da vida, resolveu ajudá-los. Disse que faria um feitiço que os ligaria até a morte, mas que para isso, teriam de sair imediatamente da aldeia para capturar o mais formoso casal de araras azuis que encontrassem, trazendo até ele as aves vivas e sem ferimentos no prazo máximo de sete dias.

No sexto dia os jovens retornaram com um casal de araras em um cesto e foram direto a Oca do Pajé, que os recebeu e ao retirar as aves do cesto percebeu que as araras eram de uma beleza impar. O velho curandeiro alcançou a arara fêmea a jovem “Pequena Estrela” e, a arara macho ao jovem “Olhos de fogo” e ordenou que amarrassem as duas aves pelas patas com uma tira de couro e as largassem para que partissem voando.

A arara macho tentava alçar vôo e era impedido pelo peso da arara fêmea. A arara fêmea por sua vez, ao tentar realizar o mesmo intento era impedida pelo peso do macho. Amarradas uma à pata da outra, o máximo que as aves conseguiam fazer era dar alguns saltos pelo chão. Em pouco tempo devido à situação estressante o casal de araras começou a se agredir violentamente.

Devido à violência entre as aves ter chegado aonde o velho Pajé desejava, ele ordenou aos jovens que as desamarrassem e as soltassem, para enfim, voarem livres. O casal apaixonado, mesmo sem entender o que estava acontecendo, obedeceu ao velho curandeiro e ao soltarem as araras, elas voaram lado a lado, como sempre voam em liberdade.

O velho Pajé repousou cada um de seus braços no ombro de cada um dos jovens e os fez contemplarem com ele o vôo das araras, enquanto lhes dizia: observem a graça do vôo dessas araras. Jamais esqueçam o que estão vendo. Este é o meu conselho. Vocês são como o casal de araras azuis. Se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, como também, cedo ou tarde, começarão a machucarem-se, magoando-se, ferindo o coração um do outro. Se quiserem que o amor entre vocês perdure, voem juntos, mas jamais amarrados. Amar e respeitar a liberdade do outro, ainda é o melhor feitiço para se levar uma vida a dois por tempo indeterminado…

Muitas pessoas levadas a confundir o amor com o sentimento de posse, acabam cerceando a liberdade do outro, recorrendo às fórmulas mágicas, às simpatias de encantamento e até mesmo aos processos de amarrações espirituais, para manterem outros presos às suas vidas. Conseguem muitas vezes o que querem, mergulhando os relacionamentos em tumultos, uma vez que a essência livre se agita dentro das vítimas desse tipo de violência e submissão a favor de um, em detrimento a liberdade de escolha do outro.

A moral que o velho Pajé passou aos jovens indígenas é a moral da liberdade e do respeito mútuo, que uma vez internalizado nos relacionamentos os torna invulneráveis às vicissitudes e aos desentendimentos. A lição das araras azuis está na fidelidade que possuem até a morte, vivendo sempre juntas compartilhando responsabilidades como a criação dos filhotes. Aves que se fazem interessantes, visto que possuindo a liberdade de voarem sozinhas e de pousarem em outros galhos, optam por voarem unidas lado a lado, pousando sempre em um mesmo galho.

Davi Roballo  

Jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing \ Especialista em Jornalismo Político.

Anúncios

Olá! Obrigado pela visita.

%d blogueiros gostam disto: