A modernidade e o Mito de Narciso

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A sede por evidência aliada a possibilidade de concretização desse desejo através das mídias sociais, vem causando um fenômeno de exposição íntima como nunca se viu na história humana. Estamos perdendo as noções de pudor e do privado a ponto de fatos que antigamente ficavam limitados a consultórios psicológicos e salas de confissão religiosa, aparecerem de uma forma ou de outra, expostas nos perfis de integrantes das redes sociais.

O fenômeno em questão, poderíamos batizar como “Síndrome do umbigo”, pois em tempo algum estivemos centrados em nós mesmos, no entanto, esse olhar para si está longe de uma introspecção, mas dominado pela busca de uma idealização do que não somos e o insano desejo de ser o centro do mundo. Estamos perdendo o nosso referencial humano a partir do momento em que tratamos nós mesmos como mercadorias que devem ser exibidas em uma feira e não mais como humanos que dependem de suas interligações, para viver, sentir, receber e doar calor humano.

Aos poucos estamos deixando o toque e a conversa in loco, natural, espontânea para entrar cada vez mais em um mundo fictício e frio. Aplausos e carinho no ego é o que buscamos mais profundamente nas nossas inter-relações virtuais, pois estamos doentes psiquicamente, doença que poderíamos chamar de solidão silenciosa e o pior, uma solidão carente de atenção, pois trata-se de uma outra parte que abandonamos em nós mesmos, uma parte que deserdamos. Este abandono, creio, dá-se pelo fato de não aceitarmos viver e ser como realmente somos, mas buscar manifestar na estética exterior e no status aquilo que idealizamos, mesmo sabendo que isso não é algo real, mas um sonho impossível de ser realizado.

A busca pela atenção em um mundo virtual, sem longe nem perto, território sem fronteiras e sem lei, tem causado uma espécie de cio coletivo devido a excitação acentuada a que estamos vivenciando, mergulhados nesse desejo de exposição onde a vaidade despertada simplesmente dá as cartas. Esse desejo de ser visto, contemplado e aplaudido carrega em si uma peculiaridade: não aceita algo negativo, como um comentário, mas exige veladamente que todos aqueles que fazem parte de nossa teia de interligações pensem e nos vejam da mesma forma como nos vemos e pensamos. Somos o centro de nosso mundo e estamos inutilmente tentando nos colocar como o centro do mundo dos outros.

No jogo das inter-relações sociais está desaparecendo as noções do belo, do grotesco, do ridículo, tanto, quanto do apelativo e do sarcástico. O mundo digital, virtual, território que aos poucos os usuários estão descobrindo que é livre e sem fronteiras está se tornando uma grande e constante feira de troca de lixo psíquico. 

Ao mesmo tempo em que procuramos um espaço na janela virtual do Mundo para sermos notados, aberrações e o mundo interior de outros inundam nossas telas, mas isso é o preço a ser pago por nossa curiosidade a respeito dos passos da vida de outros.

Levamos milênios para abandonar o estágio rude e atingir o nível sociável que alcançamos, e isso só foi possível ao desenvolvermos as noções de coletividade, as quais estão silenciosamente sendo destruídas pelo comportamento individualista em que estamos mergulhando levados pelas ilusões e aparências do mundo virtual.

Talvez o Homo Sapiens Sapiens tenha chegado a seu último estágio de evolução e agora esteja entrando em um estágio paralelo, estágio narcisista, onde alcançará o próprio fim, assim como o mito grego Narciso que morreu apaixonado pela própria imagem refletida em uma lâmina d’água, no caso do humano contemporâneo a imagem está nas telas dos computadores e outras mídias onde alimentamos e expomos nossas vaidades.
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