A pressa que move a modernidade

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Enquanto a natureza segue sem pressa, mergulhada em um equilíbrio, o homem e sua angústia diante da realidade de que todos têm um fim determinado, tenta apressar tudo como se já estivesse convivendo com seus últimos segundos de vida.

Desde que fomos engolfados pela Revolução Industrial, temos acelerado tudo o que compreende o espaço à nossa volta, seja a produção alimentícia, quanto tecnológica e intelectual, no entanto, em momento algum perguntamos a nós mesmos, se a Terra, – nosso planeta do qual provém a vida-, estaria pronta ou se suportaria esses arranjos de aceleração a que vem sendo submetida. Também não temos nos perguntado se a nossa psique está preparada para tanta informação como a que vem sendo atualmente produzida e distribuída de forma exponencial.

Em nome do progresso, estamos nos transformando socialmente tão rápido, que estão se tornando raros, episódios da vida pacata delineada pela harmonia natural entre o homem e a própria natureza. Lares sem a contaminação da modernidade encontram-se reduzidos a um exílio nos cafundós da civilização, pois na cidade não encontram mais espaço para sobrevivência.

Nesses cafundós no qual habitam aqueles pejorativamente considerados Jecas e atrasados, o alimento vem da terra e da criação de animais. Nesses redutos a semente lançada ao solo é respeitada, quanto ao seu ciclo natural de desenvolvimento, assim como a criação de animais não passa por aceleração hormonal para produção de carne no mais curto espaço de tempo, pois nesses espaços quem reina soberana é a natureza e a natureza não tem presa.

Há tanta paz nos cafundós, nos quais a natureza e o homem possuem um relacionamento equilibrado, que é impossível perceber nos olhos dos Jecas qualquer rastro de tristeza, de angústia e de desespero. Por outro lado, nas cidades, a pressa, a ambição, a vaidade, o consumismo exacerbado e a violência são companhia inseparáveis daqueles que se dizem propulsores e beneficiários do progresso.
Nos cafundós, além da inexistência da pressa, tudo aquilo que se refere a alguma utilidade é durável e resistente, pois não há a necessidade em produzir e escoar, ou melhor, a oferta não excede a procura, tudo está dentro de um equilíbrio. Não existe a preocupação em os bens materiais determinarem simbolicamente a posição social de quem os possui.

Por outro lado, na vida urbana, não bastasse a presa, estamos submetidos a uma engrenagem de produção e consumo de bens de curta duração, que trazem junto rótulos que correspondem a uma determinada escala de status e prestigio social, além de uma pressão em seguir determinado comportamento.

Estamos no geral apressadamente apressados, porque segundo Zigmunt Bauman vivemos atualmente em uma sociedade liquida, na qual tudo é estável e moldável, aspecto que não nos proporciona uma forma segura, sólida e determinada. Estamos vivendo em um movimento acelerado e constante de mudanças gerado pela cultura de consumo cada vez mais exigente, a ponto de um emprego, em muitos casos, não ser suficiente para satisfazer a demanda de consumo necessário para se alcançar o vazio do status.

Nos cafundós ainda se pode perceber as pessoas falando de planos em longo prazo com uma determinada segurança, como faziam nossos antepassados há pouco tempo. Existe ainda o tempo de plantar e de colher em conformidade com a natureza. Nesses redutos isolados da civilização, um frango com 45 dias de existência é apenas um frango e está longe do abate. Na vida urbana, moderna, devido aos hormônios de aceleração de crescimento, o frango dessa idade está na panela, pois se desenvolveu de uma forma tão apressada, tal qual é a vida de quem o consome.
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