A tecnologia e o futuro frio das relações

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Os desafios da modernidade estão nos demandando mais tempo de forma tão voraz, que não estamos percebendo as transformações sociais e psíquicas e suas consequências em nossa convivência com o outro. Entre essas decorrências está o rompimento gradativo dos laços afetivos de nossa coletividade. Atingimos um ponto em que devemos rever nossos conceitos e prioridades ante a vida moderna, que diuturnamente e de forma silenciosa vem corroendo os atributos que nos tornam criaturas coletivas e humanas.

Se formos observar mais atentamente a nossa história, sem muita dificuldade perceberemos que as sementes da desagregação social podem ter sido lançadas de forma mais abundante na vida humana a partir da Revolução Industrial. Nesse período as máquinas passaram a substituir homens e cavalos facilitando a vida do ser humano, no entanto, começou também a distanciá-lo afetivamente daqueles que vivem com ele sob o mesmo teto.

Com a introdução da televisão nos lares a partir da década de 50, a interação coletiva começava a perder forças para essa novidade eletrônica. Em pouco tempo a televisão transformou-se em babá de crianças e o oráculo de adultos, aumentando ainda mais a distância entre as pessoas.

Na década de 80, a televisão ganha um reforço a mais em favor do isolamento e virtualização do indivíduo. Surgiam os primeiros videogames, como o Atari da Polivox, que tiraram as crianças que ainda resistiam nas brincadeiras coletivas realizadas fora das residências e as levaram para frente da TV, onde hipnotizadas e solitárias começaram a jogar horas a fio.

São inegáveis as vantagens ocasionadas pelo avanço exponencial da tecnologia ao longo dos dois últimos séculos, todavia, estamos pagando um preço alto por toda facilidade adquirida junto aos bens de consumo. A convivência mais direta com nossos entes está reduzida, sacrificada a menos de um terço de nosso tempo. Um dia comum de nossa vida está divido entre oito horas regulamentares de trabalho, oito horas de sono e outras oito horas para outras atividades, entre elas necessidades vitais, sociais, afetivas etc.

A modernidade nos trouxe uma falsa ideia de liberdade ao consumirmos as facilidades que o mercado nos oferece. Trouxe também uma ilusão de autossuficiência devido a embriagues de informações a que somos submetidos diariamente. Surge em meio a esse caos o sujeito egocêntrico mergulhado em um narcisismo que o torna cada dia mais isolado, enquanto virtualiza e expõe o vazio da própria vida.

A ascensão e o avanço da desagregação social podem estar relacionados ao enfraquecimento dos laços familiares, aspectos pressionados pelas exigências da vida moderna que sacrifica o tempo em busca de fundos para prover as intermináveis apelações consumistas que pavimentam os aspectos da sobrevivência e do status.

Na Era da Informação o indivíduo social caiu na cilada de que tem de ser visto pelo mundo, isto é, tem de provar para si mesmo e aos outros que existe e tem um valor agregado, tem de ter algo para poder exibir na janela do mundo, não tendo, tem de ao menos parecer ter, pois nesse cenário virtual até mesmo a falsa felicidade ganha selo de autenticidade.

Desde meados da década de 90, a interação eletrônica gradativamente vem moldando o sujeito moderno que se comunica por um canal frio, pois o calor dos laços afetivos e sociais movidos pela interação presencial e pelo tato está sendo substituído pela frieza das telas dos computadores e smartphones. Se continuarmos nesse ritmo as futuras gerações serão compostas por sujeitos narcisistas, frios e lacônicos, pois ao que parece as conversas presenciais, o aperto de mão e o abraço estão com os dias contados.
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