Pensamentos e reflexões de Davi Roballo e outros autores

A velhice e o retorno do exílio infantil

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avó

 

Raramente ouvimos alguém falar que gostaria de retornar a infância para corrigir algo, mas é bem comum pessoas maduras desejarem retornar a juventude para reparar alguns erros. Na vida infantil não há a noção doentia de responsabilidades banais, mas a inocência de viver a vida em sua plenitude. Na juventude e vida adulta tudo deságua em um mesmo rio agitado. Na maturidade o ser humano tem uma maior noção de si mesmo e assim pode avaliar os caminhos percorridos até chegar aonde chegou.

No amadurecimento a tomada de consciência sobre o tempo e seu escoamento por entre os nossos dedos, faz a criatura humana selecionar melhor o seu próprio tempo, empregando-o de forma que beneficie melhor a sua vida. Grande parte das pessoas somente na velhice se dá conta de que a vida só é verdadeiramente vivida em seus extremos, isto é, na infância e no entardecer dos dias, porquanto o adulto inebriado pela juventude e tomado por seu egoísmo não consegue distinguir o útil do fútil e o ter do ser.

Quanto mais andamos por nossa estrada em direção ao nosso pôr do Sol, menos certezas carregamos, porquanto saber é ter certeza e a vida no seu topo prova que não há nada absoluto, que tudo se transforma, tudo se adapta e que na verdade, nada sabemos. É no estágio do amadurecimento que readquirimos novamente o espanto infantil diante do mundo e da vida, é nesse período – quando não reprimido – que a alegria salta dos olhos diante de uma simples flor, ou de uma ave graciosa que saltita de galho em galho, quando a vida vem nos saudar a cada amanhecer.

Por outro lado, existe no centro de nossa vida, entre seus extremos, a juventude afobada e tomada por uma necessidade de ser alguém. Uma procura por algo que nos diferencie de outros, visto que ignoramos que não existe o melhor nem o pior, apenas diferenças, mas a maturidade posteriormente nos mostra que não devemos em hipótese alguma invejar e jamais querer ser o outro, porquanto ele pode ser totalmente diferente do que aparenta, visto que cada um de nós, trás na alma o que colheu pelas sucessivas vidas, universo afora…

É no inicio da maturidade que o ser humano começa a desacelerar e a andar mais devagar, respirando mais compassado, enquanto algo dentro dele se agita, se contorce como um pássaro que quer logo eclodir de um ovo. A impressão é de que no entardecer dos dias a criança que foi exilada nos escombros da juventude vê a possibilidade de ser anistiada e retornar à luz do dia, na qual poderá perceber que ainda há coloridas borboletas balançando suas asas no horizonte, enquanto descalço poderá sentir a liberdade de se ter os pés nus na terra.

É crível, que a partir dessa altura da vida a criança consegue aos poucos se libertar, e então, começa a caminhar de mãos dadas com a velhice. Não há outra justificativa para este olhar mágico e contemplativo pelas belezas do mundo que só se percebe em tenra idade.  É o retorno da criança que habita o adulto caminhando em direção ao seu devido lugar: o resgate da inocência, a conjugação do verbo amar.

Aprendi com Zaratustra de Nietzsche, que os idosos assim como os sábios, são crianças que retornam de longo exílio, por isso, há tamanha empatia entre netos e avós, ou seja, criança interage mais livremente e é mais feliz com outra criança, visto que a felicidade depende da inocência para se manifestar. E quando dois ou mais inocentes se encontram, é alegria sem preço, é a beleza da vida que se manifesta verdadeiramente em seu inicio e em seu fim, enquanto que o meio caminho do existir é como o turbilhão que há no centro de um redemoinho…

 

Davi Roballo

 Jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing \ Especialista em Jornalismo Político.

 

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