Pensamentos e reflexões de Davi Roballo e outros autores

AS PRIMEIRAS PERDAS \ ITA BRASIL

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De um passado existem recordações. Em um piscar de olhos, vêm-me à mente imagens em que flutuam o antes e o depois.

Era tempo de lutas travadas entre o viver pessoal e o transporte por vidas outras que não minhas. Estava então saindo de um “luto” d’alma e do corpo; a vida me parecia turva e tudo multiplicava-se como bolhas de sabão, em fragilidades e tamanhos…Embora tudo me levasse a crer que tempos difíceis viriam, uma força interior levantava- me, direcionando para o local e hora onde tudo começaria do meio para o início, do fim para o meio e do início para o complemento de tudo.

Um sorriso sorrateiro bailava em meus lábios ainda ávidos de sentimentos, sabores desconhecidos, para a constatação de que tudo poderia ser tão bom e verdadeiro como aquele filme ou livro que perpetua as vidas dos portadores de histórias onde existem o real e o miraculoso perpassando sonhos e fantasias, de uma vida que é sua e minha, embora de ninguém.

Foi pertencendo a essa vida de ninguém que me desloquei do profundo torpor em que me encontrava para deparar-me com algo desconhecido e ao mesmo tempo  torturante, extremamente leve e feliz. Esse sentimento dúbio fez com que ondas fortes me envolvessem, impulsionando-me por caminhos que percorreria em uma firmeza titubeante em busca de um nada completo de um tudo! Foi assim que cheguei a um patamar tal de embriaguez envolvente, sentindo que tudo à minha volta era por mim ditado e analisado com a mesma fúria e brandura de minha jovem mente, já tão cansada e atribulada de pesares e pensares conflitantes pelos quais passava. Via tudo pelo prisma de uma visão circunscrita ao mundo pequeno de minhas imagens imaginadas pelas retinas sonhadoras daquilo que fora por mim sofrido e vivido.

Tenho então que contar-lhe onde começa tão desconfortante memória: era eu menina exemplar, tudo em ordem:obediência, inteligência, bondade e educação eram predicados que cabiam tranquilamente àquela menina franzina de grandes olhos castanhos e pele morena, sorriso largo, meio que desconfiado, já pela vida. Percebia-se muito pouco, não sentia que era desse mundo, esse mundo não existia, pois que, onde o mundo?

A casa era grande. Seria de madeira? Quartos, salas, corredores e um choro convulsivo vêm-me à memória, um choro de mulher que se arrebenta em uma reclamação sem fim e silenciosa dessa vida por si só desgraçada. Então é assim que se faz com quem faz coisas erradas? Trancafia-a em um lugar chamado “casa de meu pai”, aonde as pessoas vão para depois irem embora tristes e chorosas, solitárias e rebeldes com o senhor da vida. Em tempos de fúrias e indecisões, tomadas de decisões por demais difíceis e assustadoras eram precursoras de minha vida e das pessoas que me cercavam.

Vi-me de repente em outro lugar, onde diziam que seria feliz: a terra prometida! Que deveria, dali em diante, sorrir sem compromissos, pois nada me afetaria. Foi então que presenciei a cena mais tenebrosa de minha curta vida: aquele ser, dependurado de cabeça para baixo, preto, berrando insistentemente pedindo socorro, e que arrepiou-me a alma, incomodando o estômago, explodindo em uma rebeldia do corpo em líquidos engalfinhados pela garganta caindo em meus próprios pés. O berro continuou em meus ouvidos até que o sangue derramado escorregasse, deixando-o completamente sem vida; introduzi-me, portanto, na crueldade humana com desculpas de sobrevivência, matando outros seres; no caso, um carneiro para um churrasco.

Essa experiência foi o primeiro desprezo pelas questões naturais e culturais com que me depararia vida afora. Seria necessário o desfalecer de uma vida em prol da outra? Quem me explicaria que sentimentos de dor e revolta não estavam pertencendo àquela criatura que ali estava sendo sacrificada? Quem? Em minha mente ainda em formação (teria então 4 anos), tudo se tornava confuso…

Sentimentos complexos perpassavam minha mente, ora de felicidade e compreensão, ora de tristeza e dúvidas, de uma solidão sem fim, na perdição de um mundo que não era meu. Quisera eu poder voar como aquele pássaro que, cantante, pula de galho em galho. Mas, oh, infeliz que sou, com meus pesados pés,nem posso transportar meu corpo que anseia por lugares etéreos na ansiedade de sensações diversas das vividas.

Embriago-me com recordações que alvoroçam minha mente, ora de puro êxtase, ora de profunda tristeza, como o dia em que me senti completamente dona daquele serzinho peludo e amarelo que fazia piu-piu a todo momento, enternecendo minha alma  já possuidora  de afagos e carinhos por outrem. Mas que triste sina a minha,teria que aprender desde muito cedo as questões das perdas, das idas e vindas, partidas e chegadas, de tudo que mais caro existia para mim. Foi assim que em um descansar de meu bichinho, que ganhei do primeiro professor das letras, o meu pai, por distração, amassa-o, sentando em cima, esbugalhando-o sem chance de sobrevivência. Foi uma catástrofe! Por dias chorei e clamei pelo meu piu-piu até que a conformidade tomou conta de meu ser. Foi minha primeira lição de que nada é para sempre, nem ninguém.Tudo é passageiro, por mais que tenhamos amor e cuidado, e a vida nos rouba, deixando-nos completamente estupefatos, até que passamos a entender que tudo vem de uma maneira desnorteante nos ensinar as agruras que nos permitem o aprendizado. Foi dessa forma que comecei minha penosa trajetória pelos ensinamentos de fatos que viria a presenciar por toda uma vida.

ITA BRASIL

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