Certo mau cheiro

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Maria Fernanda entrou apressada no ônibus e sem cuidados quase quebra o salto de seu sapato em dos degraus na porta de entrada. Vestindo um tolher bege, maquiada impecavelmente sem exageros, como todo dia rumava para seu trabalho, mas desta vez além de sua inseparável bolsa trazia na mão esquerda uma bem acabada sacola de boutique. Não estava acreditando que tivera de pegar um ônibus por  seu carro não ter dado a partida, simplesmente porque descarregou a bateria por ter amanhecido com os faróis ligados, pois ela esqueceu de desligar na noite anterior, depois de ter atendido uma emergência. Pensava logo consigo: meu Deus, estou estressada, ando trabalhando demais e para piorar minha empregada não aparece há três dias, pois está resfriada. Tinha de acontecer tudo ao mesmo tempo. Que sorte a minha…
Quando se acomodou em um assento sentiu logo um mau cheiro, especificamente um cheiro de excremento humano. Sua primeira reação foi olhar ao redor e tentar encontrar a origem do odor incômodo e ao realizar isso percebeu que as demais pessoas também estavam incomodadas, umas examinando as solas dos calçados e outras cheirando as mãos. De todas as pessoas que examinou com os olhos para tentar encontrar o motivo de tanto cheiro ruim, desconfiou de um idoso sentado logo a sua frente. Olhando aquele senhor surrado pela gravidade e pelas intempéries do tempo logo imaginou que fosse ele, pois como médica lembrou—se das eventuais incontinências urinárias e desarranjos intestinas, que podem ocorrer nesse período da vida. Por outro lado o idoso logo percebeu que o cheiro provinha de alguém que estivesse bem perto dele e essa pessoa poderia ser Maria Fernanda, mas quando a examinou com os olhos e viu uma balzaquiana bem vestida, com uma bolsa elegante e uma sacola de uma boutique famosa, logo se convenceu ser impossível ser ela.
Quando Maria Fernanda desembarcou percebeu que o cheiro parecia persegui-la, então examinou seus calçados e sua roupa, suas mãos e convenceu-se de que aquele mau cheiro havia tomado aquela cidade, como as localidades que possuem curtumes próximos a área urbana.
Quando chegou ao hospital o cheiro também estava lhe acompanhando, por onde ela andava o cheiro a perseguia. Ao chegar a seu consultório colocou a sacola em cima de sua mesa e ao abri-la para pegar seu jaleco percebeu ali um pequeno saco de papel higiênico que na ausência da diarista havia recolhido do cesto no banheiro para posteriormente descartar na lixeira. Corou e ficou imóvel por um tempo tentando lembrar onde estava com a cabeça ao colocar um saco de papel higiênico usado na sacola de seu jaleco. Envergonhou-se ao lembrar que mesmo em silêncio acusou indevidamente aquele idoso pelo mau cheiro, que na verdade ela estava conduzindo em sua sacola…
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