Pensamentos e reflexões de Davi Roballo e outros autores

Degredados da família

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Nas civilizações antigas, tanto quanto nas contemporâneas em tempos idos,aqueles que não se adaptavam as regras e aos costumes eram banidos das mesmas e consequentemente degredados para países distantes, muitas vezes para desbravar uma região selvagem.  Entre os exilados estavam criminosos, agitadores, presos políticos e religiosos, seres humanos que o Estado considerava um estorvo e uma ameaça ao status quo da nação a que pertenciam.

Os tempos mudaram, modernizamos a vida e tudo o que nos facilita um bom viver, no entanto, os problemas continuaram, e as soluções antigas foram adaptadas. Hoje não se exila para terras distantes os contraventores e as pessoas que o Estado considera estorvo, pois são amontoados em depósitos humanos da mesma forma que depositamos em um quarto de nossa residência os eletrodomésticos, moveis e outros utensílios que não correspondem mais nossas expectativas.

Desde a Revolução Industrial deixamos de viver a vida para produzir o supérfluo trabalhando incansavelmente hoje, para desfrutar uma boa vida em um futuro inalcançável, pois a projeção futura é uma armadilha, ou seja, para o homem o Ter nunca é o suficiente, e sendo assim, ele vai buscar cada vez mais e quando perceber, a vida passou e ele envelheceu.

Com a facilidade da vida moderna o ser humano tem se tornado utilitarista e egoísta, pois os bens de consumo ao mesmo tempo em que facilitam a vida, tambémimprimem no homem a falsa noção de autossuficiência. A ilusão autossuficiente tem nos direcionado a uma autovalorização em detrimento ao outro, tanto que são cada vez mais visíveis os descasos para com aqueles que não mais possuem utilidade para o mercado de trabalho, pois envelheceram de olhos fixos em futuro promissor que nunca chegou.

Não é novidade alguma o fato de que a população mundial está envelhecendo e com isso já é preocupante o novo fenômeno de degredo que silenciosamente vem surgindo aos poucos em nosso meio social. Pessoas idosas estão sendo degredadas da própria casa para asilos e as chamadas casa lar, casa de repouso,pois no lar propriamente dito, pela escassez de tempo gasto em busca da inalcançável bonança futura, um idoso esta se tornando um estorvo, que demanda tempo, dinheiro, paciência e cuidados.

Por mais acolhedora que possa ser uma casa de repouso ou instituição de asilo, em hipótese alguma substitui as energias e os laços afetivos que existem dentro de uma casa. Por mais bem tratados que sejam pelos cuidadores de idosos, não existe nisso a reciprocidade pelo carinho e amor demandados na criação dos filhos, principalmente nesse estágio em que os pais e mães devido as limitações tornam-se os filhos dos próprios filhos.

Mudaram os tempos e mudamos também os nomes das instituições, na verdade empregamos eufemismos para aliviar o peso e o desprezo que significam palavras como asilo.  O asilo sempre foi empregado para abrigar os expatriados, os desvalidos e perseguidos políticos. Atualmente em relação aos idosos se fala em casa de repouso ou casa lar, pois parece soar melhor aos ouvidos por denotar mais carinho e atenção, mas na verdade é a prova de que estamos nos tornando insensíveis ao assassinar lentamente o que nos resta de amor e de humanidade.

Devido a falta de amor estamos vivenciando tempos tenebrosos em que as relações humanas transformaram-se em relações comerciais, ou seja, se uma pessoa não tem vantagens a oferecer ela é excluída, exilada de seu contexto social, inclusive da família. Podemos perceber isso no fato de que está se tornando comum, idosos comprarem atenção dos filhos e filhos venderem atenção aos pais através da antecipação de herança, uso do nome para transações financeiras e etc., pois para o homem moderno tempo é dinheiro.

Envelhecer e adentrar no mundo de uma pessoa idosa atualmente está sendo como ter sido degredado para outro mundo, mesmo estando dentro da própria casa convivendo com a família. Enquanto no mundo de um idoso o caminhar é mais lento e limitado; a vista é mais curta e o ouvir mais dificultoso, o que demanda paciência; o mundo dos filhos já crescidos é acelerado e sem tempo, um mundo ilusório em que seus habitantes vivem na ilusão de que jamais envelhecerão.

Davi Roballo

Jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing / Especialista em Jornalismo Político. e-mail: daviroballo@gmail.com

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