Pensamentos e reflexões de Davi Roballo e outros autores

DEPOIS DA TEMPESTADE SEMPRE VEM O SOL

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Tudo voltou ao normal depois de vários dias de chuva. Tempo fechado, ventos cortando em direções daqui e dali. Por esses dias de chuva, em que, de certa maneira, consigo desfrutar de uma alegria misturada com nostalgia, proporcionada pelo barulhinho gostoso da chuvinha fina que cai sem parar, o verdor das folhas, o crescimento das árvores, as reações da natureza pelo alimento recebido, é que bate a incrível constatação da vida, a sua finitude ou sua sequência…

Vejo a continuidade da chuva e a aparição do Sol, o dia e a noite, como um alerta para o significado do vai e vem da vida. Ontem o tempo estava fechado, carrancudo; hoje o Sol brilha e os pássaros cantam! Agora é noite; logo mais, o Sol vai brilhar, e assim sucessivamente.Em intervalos sequenciais, o tempo vai passando, e nós vamos sendo marcados na linha desse tempo. Fui criança, menina, adolescente, adulta e hoje mulher sexagenária, caminhando para a fase das experiências acumuladas, reflexões sobre valores adquiridos e procurando novo foco na vivência dos últimos fôlegos e suspiros da existência.

Agora, uma nova etapa começa,em um ritmo compassado, mas contínuo, de prazeres, sabores e sentimentos, na procura de significados para essa nova fase.

Nessa altura da vida, ao olhar para meu lar, percebo meu ninho vazio. Minha casa era cheia, os meus filhos ocupavam espaço, faziam volume, som; as panelas eram enormes, os horários, controlados: escola, trabalho, comida, sono, diversão. Movimentos intensos de sentimentos e vida. Aos poucos,eles foram buscando seus rumos, seus próprios problemas foram se avolumando, a direção e o controle, que antes era certo e rígido, agora iam pelos vãos dos dedos. Em um piscar de olhos estavam todos fora e o ninho ficou vazio!

Tornam-se doloridas as lembranças dos filhos partindo, cada um para a própria vida e os próprios desafios. Triste experiência perceber que seus filhos não estão mais sob suas asas. Criaturas pelas quais você sempre lutou, feriu suas entranhas, arrebentou-se de dor ao nascerem, perdeu seu sono por muitas e muitas noites. Fico a recordar as carícias, as conversas, o aconchego, as brincadeiras e a cumplicidade gostosa dos sentimentos. Envolvida pela saudade, imagino como ficou marcado na linha do tempo de cada um deles tudo o que passamos juntos. Em determinadas recordações, sinto certos momentos de remorso, proporcionado por falhas imaginárias do meu zelo de mãe; será que não poderia ter sido melhor? Onde falhei? E bate uma vontade insistente de tê-los novamente no aconchego do lar e dos meus braços, para continuarmos de onde paramos e vivenciarmos novas formas de aprendizado e trocas.

Comecei a perceber as mudanças quando, de certa feita, o meu filho mais novo me pediu uma reunião (tínhamos o hábito de nos reunirmos quando surgia algum problema), pois estava se sentindo muito só. Seus irmãos não conversavam mais com ele como antigamente, estavam muito ausentes. Marcamos uma reunião e ele desabafou toda a sua insegurança de ser o mais novo e de precisar da companhia deles. Foi daí que percebi o afastamento do mais velho, envolvido em um relacionamento amoroso; o do meio, com novos amigos; e eu em labuta diária no trabalho fora para trazer conforto a todos. Não estávamos conectados mais como antigamente, embora um laço profundo nos unisse, e une até hoje, devido à forma pela qual passamos grandes momentos juntos.

Tal é a vida, na qual uma sequência de fatores atravessam tempos como uma forma abstrata de sentir a varredura dos acontecimentos, que vão formando e transformando continuamente as vidas entrepostas de todos nós. Foi assim que as coisas foram tomando rumos e caminhos diversos e, sem percebermos, cada qual foi formando seus próprios problemas e criando seus próprios conflitos, sedimentando valores, criando outros, e a vida, essa implacável dona dos destinos e aliada permanente da morte, vai levando vantagem enquanto pode.

Desta forma, enquanto aprecio o azul do céu em contraste com o verde das plantas, penso na imensidão de pensamentos jogados fora no percurso e nos intervalos da minha angustiada vida. Seriam necessários tantos medos, revoltas, trabalhos e desesperos pelo não acontecido? O que é real e o que é imaginário? Nos complexos mentais que me atormentam, tudo é muito real, tudo desanda de uma forma vertiginosa; como a lei da gravidade, tudo despenca sem piedade e, como para os daltônicos, tudo e todos têm a mesma cor!

Apesar de que, nos lapsos do pensar e agir de forma verdadeiramente real, consagro-me como a heroína da minha história! Que enfrentou as intempéries da vida com bravura e galhardia, que não pestanejava diante de desafios, que lutava bravamente pela felicidade dos filhos, ficando sempre todos unidos em qualquer situação. Reconheço-me, portanto, dentro dos limites de normalidade das forças humanas. “Fez o que pode”, diria, na sanidade de minha plenitude. Mas o cruel sentimento débil, frágil, contínuo aparece sorrateiro, para logo mais vir com força arrasadora e quebrar o encanto de minha santidade e sanidade, para me postar como a maior imbecil a habitar o planeta, por permitir grandes sofrimentos evitáveis que se passaram.

Ita Brasil

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