Há tempo para tudo

Os acontecimentos do rio da vida são tantos e de formas tão diferentes, que mesmo sabendo que dia ou menos dia teremos de enfrentá-los, eles assustam. Foi assim no primeiro dia na escola, na saída da casa dos pais, na faculdade, no primeiro emprego, no casamento, mas evitamos pensar no mais terrível de todos eles, a morte. Tememos e não desejamos esse fenômeno que apaga sorrisos e interrompe sonhos de familiares, amigos, colegas etc. porque ele quebra nossa ilusão de imortalidade.
A infância com certeza é a fase mais rica e repleta de nossa vida, pois temos em nossa convivência pais, tios, avós, amigos, colegas de escola, vizinhos, animais de estimação etc. Período em que nos braços da inocência pouco percebemos do intrincado mundo adulto, pois a fantasia e a capacidade de sonhar são as capas mágicas que nos protegem das dores do mundo. No geral, salvo casos isolados, como se fosse um ensaio para perdas futuras, perdemos e nos despedimos de nossos animais de estimação, ocasião em que plantamos as sementes da frustração no peito juntamente com a resignação por nada poder fazer para trazê-los de volta.
A partir da vida adulta nossas relações tendem a afunilarem, pois muitos que fizeram parte de nossa vida ingressam na ausência da presença, motivados por mudanças para outras cidades, alguns falecimentos e sobrecarga de trabalho. Nesse contexto, chegam os filhos e somam-se aos integrantes de nossas relações, entretanto, para cada duas pessoas que entram em nossa vida outras três saem, começa então um déficit de pessoas que convivem diariamente conosco. 
Chega um dia que atingimos os quarenta anos e o tempo começa afunilar ainda mais nossas relações. As ausências por falecimentos se tornam maiores e então percebemos que estamos atingindo a maturidade e a consciência de que um dia também seremos ausência. Por ter atingido a metade da média possível de vida humana, passamos a prestar mais atenção em nossa caminhada, pois mais do que nunca aparece em nossa consciência a certeza de que não somos para sempre.
A sabedoria de nossos ancestrais diz que a vida começa aos quarenta, talvez porque nesse período de reflexões e amadurecimento desaceleramos nossa caminhada priorizando o bem estar nos atos e escolhas. Passamos a nos comportar tal qual uma criança que passa a comer mais devagar um saboroso doce, pois deseja prolongar ao máximo seu deleite. E essa noção do fim é tão clara em uma mente madura, que nas primeiras vezes em que ela aparece de forma cristalina em nossos pensamentos, o chão desaparece de nossos pés, enquanto o coração dispara, pois essa é a única certeza absoluta que adquirimos na vida.
Com o tempo aceitamos com a cabeça erguida as investidas dos dias. Mais conscientes de nosso lugar em cada segmento que frequentamos, passamos a dizer, sim, sim à vida. Nessa etapa o desespero por ter percebido um fio de cabelo branco e uma pequena ruga na face já não mais desesperam o portador, mas passa a ser uma prova de que passou pelos maiores desafios da vida e agora está finalmente pronto para viver com tranquilidade a própria existência. Isso tudo, se a pessoa tomar consciência de si mesma.

O tempo talvez tenha pena de nós, pois não nos concede sabedoria antes do amadurecimento, justamente por a velocidade em que transitamos na juventude na vã tentativa de sentir todos os cheiros e sabores imediatamente, não combinar com a responsabilidade e amor que devemos ter ante a vida. Há tempo para tudo, mas amadurecer consciente da própria existência, talvez seja o melhor da vida, justamente por fazer parte de nosso último ato no palco do próprio tempo. Chegará o dia em que cairão as cortinas, fim do ato, teremos de partir, no entanto, este será o último tchau ou teremos de voltar outra vez?
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