Meu parente mais próximo

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Entre as facetas da vida que pouco damos importância, ou melhor, fugimos de vê-la, de refletir sobre, é a nossa mais absoluta solidão. E nessa solidão só temos a nós mesmos a quem recorrer, o resto é escambo, é troca de favores onde trocamos o que nos é farto por aquilo que nos falta. Ao contrário disso, tornamo-nos inapreciáveis e não atrativos, e como um objeto que não corresponde mais a demanda de interesses somos jogados na margem da convivência social, familiar e etc., exemplos disso existem milhares, pelas ruas, asilos e hospitais psiquiátricos.

A genialidade de Kafka em “A metamorfose” explora muito bem a questão de nossa utilidade diante de outros enquanto estamos bem. A personagem principal Gregor Samsa é um caixeiro viajante que sustenta praticamente toda sua família, que o venera por isso, enquanto que se acomodam parasitando-o através de sua condição de provedor da casa.

Um dia qualquer, Gregor acorda metamorfoseado em uma barata, esse acontecimento preocupa e dispende uma atenção mais solícita da família, que até então, imaginava que a metamorfose logo passaria e Gregor voltaria a seu trabalho e ao sustento da casa. No entanto, ele não apresenta melhoras e as coisas começam a não ficar bem, pois passa a ser considerado um incomodo que exige tempo e assistência. A partir do momento que os parentes percebem não haver mais o que fazer para reverter a metamorfose, toda aquela consideração anterior transforma-se em desprezo por a situação obrigá-los a darem um jeito na vida e a buscar o próprio sustento.

Se formos observar nossos próprios comportamentos veremos o absurdo em que vivemos a vida, como nossa busca incessante pelo outro, seja para aplacar a triste realidade de nossa solidão, quanto para encontrarmos no outro aquilo que nos falta e trocar pelo que nos sobra. Nessa busca, nos encaixamos no outro como se fossemos placas tectônicas em constante movimento, por isso nossas relações, sejam quais forem, sempre passam por turbulências, terremotos emocionais, justamente por não ter como nos fundir no outro, o máximo que conseguimos é se chocar nas paredes de sua estrutura psíquica. Somos únicos e sendo assim, solitários.

Gregor não pôde contar com seus parentes, porque mesmo sendo consanguíneos, isto é, pai, mãe e irmã eles eram parentes distantes em relação a solidão, pois segundo Terêncio (Dramaturgo e poeta romano), nós é que somos nossos parentes mais próximos, com quem podemos realmente contar, já os outros, só se houver algo que os beneficie. Gregor transmutou-se em um inseto, talvez se tivesse adquirido uma deficiência e uma pensão por isso, sua família continuasse com as mãos estendidas a ele, pois o sustento como anteriormente estaria garantido.

Na nossa mais real essência somos sós, ou seja, quando precisarmos contar com alguém de verdade, em uma situação que não ofereça algo em troca, no momento ou futuramente, só poderemos contar com nós mesmos. Nossas lutas são para serem combatidas por um exército de uma pessoa só, pois os que estão próximos também vivem mergulhados nas próprias lutas, não fosse assim, não seriamos tão diferentes e não teríamos a própria vida.

O melhor amigo que podemos ter na vida está sempre diante do espelho e por incrível que possa parecer, pouco o conhecemos. Isso ocorre pela internalização cultural passada de geração a geração em terceirizar sempre a solução e/ou a culpa por nossos problemas. Se prestássemos mais atenção ao espelho perceberíamos que mesmo sozinhos, somos fortes o suficiente para seguir em frente com a cabeça erguida e a fé por novos e bons dias redobrada.

Enfrentamos ansiosos a vida e suas nuanças porque estamos bastante distantes de nosso parente mais próximo, que segundo Terêncio, somos nós mesmos. “Sê tu mesmo” de Píndaro (Poeta grego) e o “Torna-te o aquilo que tu és” de Nietzsche é justamente abraçar e trazer para dentro de nossa vida o nosso parente mais próximo, pois só ele é capaz de equilibrar e firmar os passos de nossa vida. Se pudéssemos conversar in loco com nosso parente mais próximo, certamente nos diria: Conheço alguém que pode solucionar todos os teus problemas e te fazer feliz. Se estiver a fim de conhecê-lo olhe-se no espelho, pois ninguém a não ser tu mesmo pode te dar o que queres, duendes, fadas e seres mágicos são impotentes para isso.
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