Pensamentos e reflexões de Davi Roballo e outros autores

Morrer é inevitável…

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Estou em uma briga acirrada contra a morte. Nosso fim se aproxima sempre sorrateiramente e, sem pedir licença, faz o seu intento e sorri ao se despedir dos demais. Ah, morte! Que me fascina e corrói… “Vou te encontrar vestida de cetim, pois em qualquer lugar espera só por mim.” Encontro-te em um rosto suave, meigo, embora forte, com pequenos olhos já cansados e acinzentados por ocorrência do tempo, esse tempo que trabalha incansavelmente, indiferente a tudo e todos, o mesmo tempo que produz a ferrugem, desgasta as rochas e fragiliza nosso corpo.

Alguém me disse que é assim mesmo, que uns vão e outros vêm, mas quem concordará em abrir mão de parte da sua vida? Em deixar o seu ponto de referência partir? Ao perceber minha mãe já velhinha, limitada e quase cega, as lágrimas inundam meus olhos, tento abafar o choro antecipado por uma perda que sei ser inevitável.

Quem aceita ver a vida definhar devagarinho, bem assim, na frente de seus olhos, sem muita coisa a fazer? Mãe amada minha, quero aconchegá-la em meus braços, dizer-te do infinito amor que no decorrer da vida me ensinou, dos exemplos de bravura e coragem que por fim foram sedimentando meu ser. Sei que o tempo cruel passa em sequências de segundos, minutos, horas, em um tic-tac infinito, implacável, contando a vida passada, transformando a sua história no pretérito lembrado no presente, povoando de lembranças da construção de uma vida.

Dessas lembranças que trago na alma referentes à minha mãe, apego-me aos momentos de ternura, quando me acariciava e contava histórias, todas de cunho moral, a ensinar-nos sempre os bons caminhos. Lembro-me do enorme fogão à lenha, onde, bem de manhã, sentávamos para saborear um delicioso mingau de amido de milho com pão caseiro. Minha mãe ensinou-me com peculiaridade só dela a cantar o hino nacional desde pequenina, frase por frase, declamando e dizendo das maravilhas do nosso país. Como não me lembrar das pregações religiosas, das oraçõezinhas de boa noite, de pedir: benção, mãe! Benção, pai! Lembro-me das revistas com fotonovelas em quadrinhos, que eram suas preferidas, das novelas de rádio, que ouvíamos, não raras vezes, com lágrimas nos olhos, sofrendo junto com nossas personagens preferidas.

Como me esquecer de minha mãe, do carinho nos dias de doenças, dos conselhos na adolescência, do incentivo para os estudos, da grande batalha para nos dar conforto e me fazer feliz.

Lembro-me de minha mãe indo a meu encontro mesmo quando adulta e seguindo rumos diferentes dos idealizados por ela. Minha mãe nunca me deixou só e partia a cada murmúrio meu, ia sempre em meu socorro, levando afetos e carinho. Quando senti o doce sabor da responsabilidade de ser mãe, lá estava minha mãe a dar-me força, a incentivar a educação.

A vida se embola com a morte e sempre sai perdedora. Neste exato momento em que rememoro minhas lembranças de menina e de minha mãe, percebo que ela trilhou os caminhos que eu trilhei e eu agora começo a trilhar os últimos trechos do caminho que ela trilhou. Essas constatações chocam, pois, mais que tudo, levam-nos à certeza de que não somos imortais.

Percebo hoje que minha mãe, em pouco tempo, encontrará seu desenlace dessa vida, assim como todos nós um dia teremos o nosso. Após chorar rios de lágrimas, algo dentro de meu ser parece ter se conformado com o início dessa nova fase de minha vida, ciente de que tudo acaba…

Texto de Ita Brasil

 

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