Não foi a vaidade que matou Narciso

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Segundo a interpretação ocidental moderna, na Mitologia Grega, Narciso, acabou morrendo por ter se apaixonado por si mesmo ao ver a própria imagem no reflexo d’água em um lago. Desde que esse mito emergiu novamente na cultura ocidental é tratado como sinônimo do sujeito vaidoso que leva o amor por si mesmo aos extremos. No entanto, se formos levar em conta os valores gregos da época em que a Grécia floresceu como referência intelectual do mundo é possível perceber que o sentido do mito de Narciso está totalmente distorcido, ou melhor, vulgarizado.

Para compreender a profundidade dos signos e símbolos que moldam os mitos gregos, é preciso antes de tudo despir-se de ideias pré-concebidas, que parecem ser a essência total da mitologia em si, como por exemplo: pensar que os gregos de outrora eram ingênuos, tolos que acreditavam piamente ao pé da letra na gênese e ato contínuo de seus deuses e mitos. É preciso se conscientizar de que os gregos utilizavam seus mitos e lendas para interpretar e compreender a vida, suas nuanças e reviravoltas, bem como as vicissitudes humanas.

Segundo o poeta grego Ovídeo, quando Narciso nasceu sua mãe, a ninfa Líriope foi consultar o cego Tirésias (importante adivinho grego), que vaticinou: “Ele viverá muito se não conhecer a si mesmo.” O tempo passou e Narciso um dia cansado e com sede procurando uma fonte para saciar-se se defrontou com uma lamina d’água na qual ao deitar-se para sorver água viu outra figura que lhe olhava diretamente nos olhos. Nessa ocasião além do desejo de saciar a sede nasceu em si outra sede, só que insaciável. O desejo de conhecer e compreender aquela outra imagem tornou-se maior que o próprio Narciso. Ele olhava a imagem com paixão e a imagem correspondia, ele acenava apaixonadamente e a imagem retribuía o mesmo aceno, quando tentava pegá-la, tê-la, compreendê-la a imagem esvaecia…

Narciso permaneceu dias tentando converter a rejeição da imagem refletida por aceitação, assim foi enfraquecendo, mas antes de morrer reconheceu que a imagem era na verdade ele mesmo e talvez tenha dito: “Este sou EU”. Não foi só a própria imagem que Narciso reconheceu naquele espelho d’água, mas o amor por si mesmo, um amor não correspondido, pois aquilo que ele imaginava ser, na verdade não o era.

A morte de Narciso significa a decepção que encontramos ao descobrirmos através da autoavaliação, que não somos aquilo que idealizamos ser, mas algo totalmente diferente. Amamos uma idealização que imaginamos ser o Eu, mas nosso Eu idealizado não corresponde, pois ele não existe.

A vida é dura, nas palavras de Nietzsche “viver é um perigo”, pois o autoconhecimento nos possibilita perceber a dualidade em que vivemos, ou seja, o que somos e aquilo que idealizamos ser. No contexto viver, para podermos suportar o peso da realidade optamos por viver como se fossemos o que idealizamos ser, enquanto evitamos encarar a nós mesmos em um espelho, como fez Narciso.

Não foi a vaidade que matou Narciso, mas o espanto por não ter reconhecido o próprio rosto refletido em um espelho d’água. Narciso morreu de inanição, pois pensou que em pouco tempo desvendaria o mistério de sua outra face que lhe retribuía os gestos refletidos no espelho d’água. Narciso pensou que logo que conhecesse a si mesmo tornar-se-ia bem mais feliz, mas na verdade foi apenas uma decepção, pois percebeu não ser nada daquilo que sempre pensou ser. A decepção em saber que o outro, o desconhecido era na verdade ele mesmo e o que pensou ser, nunca existiu, era apenas uma ilusão, uma idealização…
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