Não viva para deixar herança, e, sim para deixar saudade

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Em certa ocasião,há quase 18 anos, em uma noite estrelada e fria do mês de agosto compareci aos atos fúnebres do pai de Carlos Roberto, um amigo de longa data. Agropecuarista, Raimundo possuía fazendas e lavouras no Rio Grande do Sul, Matogrosso do Sul e Goiás. Um grande patrimônio obtido por alguém que após ter cumprido o serviço militar obrigatório possuía apenas duas mudas de roupa e um par de sapatos.

O agropecuarista em questão trabalhou diuturnamente até perto do fim de sua vida. Sempre foi visto saindo de casa às05h30min da manhã e retornando após as 22h00min, o tempo era-lhe escasso, razão pela qual perdeu muitos momentos da vida de seus cinco filhos, quatro mulheres e um homem. Em seus últimos anos de vida também pouco conviveu com os netos.

Raimundo fez tudo para que sua família não passasse pelas mesmas necessidades e dificuldades pelas quais passou em sua infância e adolescência, resumidamente ele não viveu e não se permitiu viver mais ativamente na vida de seus familiares, no entanto, tardiamente percebeu que deveria ter vivido para deixar boas lembranças e não bens.

Vitimado por um AVC, Raimundo perdeu a fala e o movimento do corpo e por dois longos anos testemunhou impotente e calado as brigas intermináveis dos filhos pela divisão dos bens, em uma clara alusão de que desejavam de uma forma discreta a sua própria morte.

Segundo Roberto, com o qual o pai tinha mais afinidades, Raimundo desistiu de viver, talvez por ter se dado de conta que todo o seu esforço teria sido em vão, porquanto ele praticamente imobilizado e inútil sentiu-se um estranho dentro da própria casa que havia construído e na qual cuidadores sem vínculo consanguíneo tomavam conta dele.

Em janeiro de 2017 encontrei Roberto na Livraria Cultura em Porto Alegre, após os cumprimentos sentamos em um bar e colocarmos a conversa em dia. Quase duas décadas de ausência do pai e Roberto me surpreendeu ao me dizer que Raimundo apesar de não ter sido tão participativo na sua vida e na vida de suas irmãs, deixou a ele uma grande lição, em suas palavras: de nada vale uma gorda herança se não houver boas lembranças e recordações para dar sustentação ao que materialmente foi herdado.

Soube pelo amigo que a sua família aos poucos se desfez praticamente de toda herança em negócios duvidosos e investimentos errados, porquanto eles aprenderam a desfrutar e não a manter um patrimônio, restaram apenas suas profissões, as quais o dinheiro possibilitou a qualificação nas melhores faculdades do país.

Se formos analisar o que ocorre em nossa volta, principalmente em nossa família, nos veremos, embora de forma mais leve, mergulhados em um mesmo processo ilusório em que viveu Raimundo, isto é, fazemos de tudo para que nossos filhos tenham do melhor, enquanto que o melhor entre todos os bens de um ser humano está se fazer presente na vida daqueles que nos rodeiam.

Vivemos atualmente uma inversão dos valores adquiridos paulatinamente em nossa trajetória enquanto seres humanos. Tempos tão confusos em relação a convivência e aos conflitos familiares, que já não mais sabemos se estamos vivenciando a ausência da presença ou presença da ausência na vida de nossos entes, uma vez que estamos tomados por um egoísmo extremo, mergulhados na ilusão de que o dinheiro cobre e resolve tudo.

É de lamentar que apenas com o desacelerar da vida ao atingir a maturidade vamos nos dar de conta do quanto a presença e a convivência se fazem necessárias na vida familiar. Muitos filhos só entenderão com a chegada da maturidade o porquê da complacência dos avós com os netos, ou seja, é a última esperança de serem lembrados e embalados pela saudade, é se tornar inesquecível na vida de alguém, porquanto o nosso desejo mais profundo é sermos reconhecidos e lembrados…

Davi Roballo

Jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing / Especialista em Jornalismo Político. e-mail: daviroballo@gmail.com

 

 

 

 

 

 

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