Pensamentos e reflexões de Davi Roballo e outros autores

O apanhador de latas

Scroll down to content

LATAS.jpg

O velho Juvêncio era tido como louco por todos que passavam por aquela esquina e o viam sair de um velho ônibus e estender as mãos aos céus a dizer: obrigado estrela de fogo que iluminas meu dia, minha alma e minha vida, obrigado por ainda não ter se cansado dos homens. Obrigado mãe Terra pelo alimento que comi ontem e pelo que comerei hoje. Obrigado universo sem tamanho por toda minha felicidade e por toda minha riqueza.

Juvêncio mesmo com os gracejos dos passantes não deixava de abraçar árvores e chamar cachorros e outros animais de irmãos, enquanto se dirigia para a padaria do Joaquim e mal chegava o português logo lhe perguntava:

– O que é felicidade para você Juju? E Juvêncio respondia:

– É uma caneca de café com leite acompanhado de um pão com mortadela pela manhã e ler um bom livro durante a noite, enquanto tenho a companhia e o silêncio de meus cachorros.

– E o que meu amigo anda lendo?

– Dom Quixote. Estou na enigmática parte em que o Cavaleiro da Triste Figura enfrenta 40 Moinhos de vento que ele jura serem gigantes, derrota 20, e é derrotado por 20. Genial, genial esse Cervantes, pois essa parte nos mostra o absurdo que cometemos muitas vezes ao enfrentar o que não existe, a sandice em construir uma ficção para nos proteger da realidade. Criar um mundo paralelo por termos medo de explorar nosso mundo interno, um mundo desconhecido e que nos causa pânico só o fato de olharmos fixamente para dentro de nossos olhos quando estamos diante de um espelho.

– Você já pensou em largar essa vida Juvêncio, pois já nos provou ser uma pessoa inteligente?

Perguntou-lhe um produtor de TV, que há dias tentava convencê-lo a gravar uma série sobre sua vida como apanhador de latas.

– Eu, largar minha vida livre, leve e entrar nessa prisão em que vocês vivem, nunca! Tudo o que possuem eu já possui e quanto mais possuía, mais pobre ficava, já vivi trancafiado em casa como vocês vivem e hoje exposto aos perigos das ruas estou mais seguro que todos…

– Mas é uma oportunidade de mudar para melhor tua vida. Disse o produtor.

– Minha vida eu mudei para melhor desde que decidi viver como vivo.

– Juntando latas! – reagiu o produtor.

– Não. Recolhendo o lixo que as pessoas que se julgam felizes por terem um carro, um apartamento e um bom emprego jogam por onde andam, pois perderam a sensatez ao tratarem as ruas como tratam o ambiente interno de si mesmas.

– Você não entendeu. Estou te falando da oportunidade de sucesso e de levar uma vida tranquila. – enfatiza o produtor.

– Isso é tudo o que minha vaidade quer. Se eu der isso a ela, tudo que há de harmonia em mim evapora. Passarei a ser alguém agitado e insaciável, pois uma vez acordada, a vaidade se torna cada vez mais voraz a ponto de consumir quem a alimenta.

– Não seja intransigente, – insiste o produtor – quero te oportunizar uma vida digna a um homem de tua sabedoria.

– Não meu caro, talvez não saibas, mas queres mesmo é se aproveitar das bobagens que digo para ganhar dinheiro e posteriormente comprar, comprar e comprar futilidades na esperança de preencher teu vazio existencial. Hoje pode discordar deste velho, mas chegará o dia em que vai perceber teus cabelos brancos e o rastro do tempo em teu rosto, então lembrará e dará razão a este amigo que todos percebem como um louco, um Diógenes contemporâneo, que vive, não em um barril, mas dentro de uma sucata de ônibus…

Juvêncio ainda anda pelas ruas e pelas estradas apanhando latas agasalhado em sua roupa surrada, ciente de que o agasalho da felicidade é o coração leve e a alegria de viver…

Davi Roballo, Jornalista – daviroballo@gmail.com

Anúncios

Olá! Obrigado pela visita.

%d blogueiros gostam disto: