O último velho


Fim de tarde do dia 16 de dezembro do ano de 2165, últimos minutos de expediente diário de uma repartição pública, dois bolos decorativos, um com uma vela de 100 anos e o outro com uma de 120 estão dispostos em uma mesa. Em volta mais de vinte funcionários – todos aparentando a mesma idade, embora as diferenças variem entre 20 e 50 anos –, ouvem as palavras de um idoso de olhar firme que gesticula com a mão direita enquanto a esquerda apóia o corpo em uma bengala.

André Aragão e Silva nasceu no ano de 2045 e ingressou no serviço público do ministério da justiça no dia em que completara 20 anos. André é uma das poucas pessoas que se negam a se submeter a tratamentos a base de hormônios antienvelhecimento, a transplantes de órgãos mecânicos em substituição aos biológicos e a periódica reprogramação cerebral imposta pelo governo, diz que optou por isso por já estar cansado da vida.

Em sua fala, o funcionário mais longevo do ministério da justiça confirma aos mais jovens aquilo que nessa data tornou-se um tipo de lenda, pois poucos acreditam que o mundo já esteve interligado digitalmente, que existem outros continentes além do continente americano, continentes que se isolaram após a 3ª Grande Guerra que destruiu parte da Europa e da Ásia.

André provoca risos mecânicos quando com semblante triste conta a todos que seus pais e avós trabalharam por trinta anos e descansaram o resto de seus dias recebendo o mesmo salário. Ao contar o que acontecia antes da falência das previdências mundo a fora, devido ao aumento da expectativa de vida entre 150 a 200 anos, muitos de seus colegas dizem ser isso impossível. Não conseguem imaginar alguém em casa sem produzir, alguém sentado o dia inteiro em frente a uma TV, jogando xadrez com outros amigos idosos em um parque público ou buscando netos da escola. Cochicham entre eles que o Aragão tem uma imaginação muito fértil.

Mesmo com conversas paralelas, André prossegue sua explanação, pois sente-se nostálgico e precisa exteriorizar o que lhe aperta o coração nessa oportunidade em que completava 100 anos de profissão, sendo que 70 trabalhando sem férias, descansando apenas em feriados e fins de semana. Embora para seus colegas pareça ridículo, conta que nas férias sempre rumava com a família para as praias do litoral paulista, no qual se banhava e caminhava nas areias ao amanhecer. Diz que teve três filhos gerados naturalmente na barriga de sua esposa e não em úteros sintéticos, diz com os olhos marejados de lágrimas: meus filhos dormiam em meus braços, brincavam comigo e minha esposa, ouviam histórias de nossas bocas, jamais foram nanados, alimentados e educados por robôs humanóides. Seus colegas simplesmente acham isso tudo muito primitivo. Sexo entre dois humanos, um horror, sentir a temperatura, o hálito e o fluido de outro corpo, simplesmente nojento. Entendem eles que os úteros sintéticos e os bonecos sexuais programáveis visam uma higienização e controle de doenças. Entre a nova geração do século XXII ter filhos é procurar uma agência de fertilização e entregar lá um fio de cabelo ou um pedaço da própria pele e escolher as características do futuro bebê que será educado e criado por máquinas.

André é o último velho do continente americano e por ter se negado até então a reprogramar seu cérebro e a consumir a comida industrializada distribuída pelo Estado das Nações Unidas do Sul do Mundo, foi condenado pela Suprema Corte a se submeter às fornalhas de incineração. Nessa oportunidade está comunicando seus colegas que esse era seu último dia no Ministério da Justiça.

As fornalhas foram criadas como local de eliminação de todas as pessoas consideradas estorvos ao bom andamento do Estado. Existem em todo o Continente. Nas casas úteros ao nascerem os bebês passam por uma triagem, na qual são eliminados todos deficientes físicos e aqueles que exames de retina e de sangue apontam uma tendência a desenvolver transtornos mentais. Os chamados refugos ardem nessas fornalhas onde também são eliminados os quase inexistentes ladrões, assassinos e estupradores que são refratários a reprogramação cerebral.

As pessoas que ultrapassam os 150 anos de idade passam periodicamente por exames que medem seus desempenhos cognitivos e físicos e aqueles que não conseguem mais reprogramar e ficam aquém dos índices dados como suficientes pelo Estado, são encaminhados às fornalhas, mas não da mesma forma que os considerados refugos. A eles são reservados rituais de despedida, pois chegam até as fornalhas cumprindo um rito espiritual e obrigatório como parte de uma purificação. Segundo o Estado, isso se trata de uma tradição milenar e fundamentada no sétimo mandamento do Livro da Iluminação: “Todo ser ao completar mais de 150 ciclos de vida e não mais corresponder aos desígnios de produção, trás em si a mensagem de que cumpriu sua missão e a ele será ofertada toda glória e galardão dos céus, no qual deverá juntar-se ao pai de todas as coisas fundindo-se as cinzas das fornalhas, que representam o inicio de tudo. Este privilégio não deverá ser estendido aos sacerdotes e governantes, esses deverão ser incinerados apenas depois de mortos, não tendo um limite de idade para isso, pois a eles deve repousar o fardo e o sacrifício em comandar e liderar até o ultimo suspiro, por que assim quer Deus”.

André em suas últimas palavras lembra-se de seu passado: Sou de uma época em que as pessoas morriam em casa, nos hospitais, uma época em que existia amor entre as seres humanos, época em que não se eliminava os diferentes, como hoje fazem nas fornalhas. Antigamente, embora não acreditem, pois são programados para não acreditarem, dávamos muito valor a vida, a ponto de não nos julgarmos capazes de eliminar um diferente, tanto que entre nós haviam deficientes e pessoas centenárias cuidadas pelos mais jovens, tendo segurado um salário correspondente aos anos que trabalharam em prol do progresso do Estado e hoje esse mesmo Estado livra-se daqueles que não mais possuem condições de produção. Faz isso, para aliviar o ônus que causam na economia e no tempo despendido em ter de cuidá-los.

Depois de uma pequena pausa prossegue: Se alguém das épocas em que vivi fosse trazido até aqui, ficaria estarrecido ao ver as fileiras de pessoas que se formam ante as fornalhas, para dar fim a própria vida. Seres humanos que são iludidos por uma programação cerebral, convictos de que isso se trata de uma tradição milenar, algo que nunca existiu a não ser na ideia de quem os controla. Talvez seja eu o único homem a ser incinerado que sabe ser isso uma grande mentira. Amanhã entre as primeiras horas do dia serei incinerado como um refugo, como um criminoso. Deixarei de existir e comigo desaparecerá fragmentos da verdade que todos vocês estão impedidos de ver. Amanhã será o dia de minha morte, não sei para onde vai a minha consciência, minha alma, meu espírito, mas sei que vou feliz, pois eu vivi, eu senti, eu amei, eu chorei, eu me desesperei, eu me confortei, eu menti, eu acreditei, eu sorri, eu chorei… sensações que nunca sentirão verdadeiramente, pois a capacidade natural em sentir é arrancada de todos vocês todo dia durante suas refeições…

Texto com todos os direitos reservados a Davi Roballo
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