Sobre a gratidão e a compaixão

Sempre que nos aproximamos dos festejos tradicionais de fim de ano, envolvidos pelo clima emotivo que a as datas decorrentes nos causam, atribuímos a nós mesmos virtudes como a compaixão e a gratidão, embora pouco sabendo sobre os atributos que correspondem a esses dois valores tão essenciais a consolidação do homem virtuoso.

Por vivermos em torno de um autoconceito não nos conhecemos, não nos conhecendo julgamo-nos portadores de virtudes, que na verdade ainda não desenvolvemos de forma satisfatória ante o outro.
De acordo com os dicionários a compaixão é a capacidade de sentir a dor do outro e estender-lhe as mãos sem ao menos pensar em ter algo em troca. Trata-se de uma virtude totalmente diferente do sentimento de pena. É aquela força que alguém em um determinado momento precisa para prosseguir, não é um empréstimo, muito menos um investimento é simplesmente colocar-se no lugar do outro a ponto de sentir sua angústia e seu desespero ante uma situação difícil.

No atual cenário moderno no qual estamos inseridos há uma grande confusão quanto a compaixão, pois estamos muitas vezes agindo impulsionados pela oportunidade de evidência em detrimento aos atos anônimos do coração.  A compaixão é isenta de ostentação, trata-se de um ato, de uma atitude espontânea a ponto de o compadecido nem dar-se de conta que o é. Revelar a um grupo de amigos uma ação em beneficio de outro pode ser qualquer outra coisa, menos compaixão.

A gratidão também é uma virtude tão importante e rara quanto a compaixão, tanto que podemos considerá-la a maior de todas as virtudes e até mesmo, o topo da honra e moral de um ser humano. Segundo o místico Osho, um homem pode conquistar o mundo, pode doar-se por inteiro, mas se não possuir a gratidão, de nada vale. Para Osho na gratidão estão somadas todas as virtudes que fazem do homem elevado uma raridade, pois para ser grato é preciso antes de tudo esquecer-se de si mesmo anulando o Ego.

A gratidão jamais se configurou a um ato mecânico de saldar uma dívida ou escambo de favores, é muito mais do que isso, é um ato de amor e o amor não tem preço. A gratidão emerge da alma como um reconhecimento humilde de que o homem não é autossuficiente, mas que faz parte de uma cadeia interligada de solidariedade que se estende desde os pais até o coveiro, profissional que representa o elo final dessa corrente na qual o homem se apoia na vida.

Muitas pessoas vivem à margem da compaixão e da gratidão, pois encontram dificuldades em aceitar uma mão estendida em meio a uma dificuldade, preferindo muitas vezes pôr tudo a perder do que se submeter à compaixão alheia. Por ainda não terem galgado as virtudes que servem de degraus para alcançar a gratidão, muitas vezes aceitam a compaixão do outro, mas aceitam em prol do benefício próprio ou como se o outro tivesse obrigação de socorrê-lo constantemente, por isso não agradecem, pois encontram dificuldades em reconhecer uma ação benéfica de outro, porque segundo Nietzsche, “uma alma grosseira se sente mal quando sabe que precisa agradecer alguém”.

Se refletirmos em torno das premissas dessas duas importantes virtudes, perceberemos que ambas estão intercaladas, pois só consegue ser compassivo aquele que se esquece de si mesmo e quem consegue esquecer-se de si mesmo é um ser grato, logo a compaixão depende da gratidão e a gratidão depende da compaixão.

O alcance da compaixão e da gratidão plenas talvez esteja no coroamento do “Homem de Bem” kardequiano e/ou o “Super-Homem” nietzschiano. A nós simples mortais perfectíveis resta a trajetória de um longo caminho, cientes de que a consolidação da gratidão e da compaixão não é coisa tão simples e fácil de alcançar como muitas vezes acreditamos.
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